quarta-feira, 29 de maio de 2013

O encantamento

Gundeico era um homem sábio. Aliás, mais sábio do que benfeitor, como muitos acreditavam. Não era uma pessoa má, até porque ajudava sempre os mais carentes quando necessitavam cortar uma perna, sarar de um piolho ou até mesmo da peste sem cobrar um centavo. O curioso era que ele sempre se interessou mais em como uma ferida surgia do que na própria dor do enfermo.

 Gundeico cortando um braço de um paciente 


De uma coisa é certa, nunca foi ambicioso financeiramente, afinal sempre teve a ajuda de seus pais para se alojar e comer. Para a família Musa, ele era o orgulho. Não precisariam ter mais filhos para se sentirem realizados. Gundeico era o acúmulo de todos os desejos de Delmar e Fadhawa juntos. Como seu nome.

Talvez o único ressentimento escondido e vergonhoso de seu pai era o fato de seu filho nunca ter se interessado pelo seu comércio. Suas duas lojas em Alexandria lhe rendiam lucros enormes, mas não mais do que a fama de generosidade de seu filho aos miseráveis.

 Navio chegando em Alexandria

Com o passar dos anos, a fama e bondade do médico iam se espalhando pelas fronteiras e além mar. Certo dia, ao atracar no porto de Alexandria, um casal da corte real de Constantinopla desceu às pressas para chegar à casa de um grande militar local, amigo deles. Um soldado ordenado pelo militar foi correndo atrás de Gundeico. A senhora estaria em trabalho de parto a pelo menos 57 horas e a parteira que fora com eles, estaria passando mais mal do que a futura mãe, devido alguma enfermidade que pegou no sul de Creta. Além de ser o melhor médico que a cidade jamais conhecera, era eunuco e, portanto, não haveria problema em ver a senhora parindo. 

Ao chegar ao quarto, mandou providenciar panos e água quente. Ao tocá-la, percebeu que o bebê não estava encaixado, muito embora as contrações estivessem intensas e próximas umas das outras. Com o auxílio de algumas técnicas de respiração e movimentação na barriga, Gundeico conseguiu posicionar a criança e a bolsa finalmente estourou. Após cinco horas e quarenta e sete minutos, a criança começava a aparecer. 

Era uma gritaria só no quarto de felicidade, mas principalmente alívio à mãe. Era uma menina!

 O olho de Vasti

Ao tirá-la, cortar seu umbigo, aspirar seu nariz e limpar de todo o sangue que a banhava, percebeu a cor exótica de pele cintilante e branca da menina. Levou até a mãe e foi chamar o pai. Este entrou correndo para ver se as duas estavam bem. Ao agradecer chorando ao médico, a voz grossa do pai ecoou no quarto, e a pequena Vasti finalmente abriu os olhos e mostrou a todos a cor roxa e profunda que tinha. Gundeico estava maravilhado e encantado por essa novidade. O que não sabia era que este encantamento o levaria para o outro lado do mar.


3 comentários :

Hugo Marcelo Barbosa disse...

Oi Camila,

Muito bacana esta postagem e gosto muito do perfil do Gundeico. Na idade média, antes do advento da anestesia, se um médico for sentimental não vai conseguir fazer seu trabalho (amputar membros).

Hugo Marcelo

Camila Numa disse...

Bom saber Hugo!
Confesso que muita coisa tenho procurado na internet pra saber como funcionava!
Quando não consigo encontrar, dou uma inventada torcendo pra que seja parecido com o que foi!
=D

Hugo Marcelo Barbosa disse...

Pra ser bem sincero, acho que até hoje é assim.

Médicos(as) muito sensíveis acabam deixando o fronte de batalha e vão para outras áreas como M.P.C. ou administração hospitalar...

Hugo Marcelo