segunda-feira, 3 de junho de 2013

Natal sem noite feliz

Ela estava deitada naquela cama, o ventre volumoso em 8 meses de gravidez. Nada podia arranca-la dos gemidos enquanto seu corpo ardia em febre. Os humildes médicos da aldeia (na verdade simples mestres das ervas) nada puderam fazer. E nenhum vizinho quis me ajudar a transporta-la pelas montanhas até a estrada mais próxima, por medo de também ser vitima daquela doença maldita. Até mesmo os pais dela tinham medo de se aproximar. Assim, apenas eu pude tentar conforta-la. Felizmente estas pessoas de quem falei, ao menos ajudaram a tocar nosso sítio enquanto eu cuidava de Anna Kwiatkowska. Naquela época, eu ainda era Jan Kwiatkowski.


Nunca tive a erudição dos padres que passaram pela nossa região, e nem poderia, já que os livros são produzidos mais devagar do que a fala, bem mais devagar. Então, eu nunca soube rezar algo além daquilo que meus pais me ensinaram.  E era com isto e com os gemidos do meu coração que eu pedia a alguém chamado Deus, que salvasse Anna.  

Cheguei a oferecer minha própria vida a este tal de Javé, para que ela e a criança pudessem viver.

Retomando o que eu já disse, absolutamente nada acalmou os gemidos dela. Nenhuma prece, nenhum Deus bíblico. Então comecei a dar hidromel a ela, para que ao menos ela sentisse alívio o suficiente para podermos nos despedir. Então, em seus últimos momentos, ela me pediu:

- Jan, meu amado! Quando eu parar de respirar, e meu coração parar de bater, abra meu ventre, mas com cuidado. Tente ao menos salvar nosso bebê!

- Mas, e se eu, com isso, acabar com qualquer chance de que você volte à vida? – olhei para ela estupefato, sem conseguir acreditar que ela estava realmente me pedindo isto.

- Então, quando você olhar para nosso nenê, lembre-se que ela é sangue do nosso sangue, e que também eu estarei viva vela. – nossos olhos se encheram de lágrimas neste momento.

Dei-lhe o beijo mais terno e ao mesmo tempo mais ardente que ela poderia receber, no estado que estava.  Pouco depois ela caiu em sono eterno. Mas eu não podia chorar, pelo contrário. Agora era o momento de ser forte. Peguei a faca mais afiada lá de casa, aliás, nossa única faca, e comecei a fazer... o serviço.  Depois de 5 minutos, pude finalmente ver Joanna. Assim que a retirei do aconchego do ventre de sua mãe, o choro dela começou a ecoar pela casa. Limpei e menina, e logo a agasalhei, pois era um terrível entardecer de inverno, e o vento vindo do leste entrava até a alma, apesar da nossa humilde casa ser bem construída e não ter nenhum fresta. Tanto que foi difícil ajeitar placenta e a pele de Anna de volta no lugar, pois logo elas começaram a congelar. Abri a janela virada para oeste, para ver se os últimos raios de sol traziam um pouco de alento ao meu coração, que a estas alturas estava mais triste que uma noite de inverno nos montes Tatry.  Mas Joanna me lembrava que a vida continua. Peguei um pouco de leite dos seios ainda moles de Anna, esquentei no fogo, e dei a Joaninka.


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Um comentário :

Hugo Marcelo Barbosa disse...

Grande Luciano,

Excelente texto. Gostei muito, Cain Nimrodski tem história para contar.
Estou muito curioso para saber o que acontecerá com a Joanna...

Att,

Hugo Marcelo